Terça-feira, 22 de Março de 2011

Esculturas góticas

A opção por alguns bons exemplos que elucidem sobre as carcterísticas que inventariámos:

Deixo-vos um dos exemplos mais "clássicos" (presente no vosso manual, mas num ângulo menos favorável): reparem no alongamento-verticalização das figuras e também nalguma da rigidez e convencionalismo ainda existente nas mesmas. Reparem na já bem visível humanização dos rostos. Reparem ainda na verticalidade convencional do pragueado das vestes-panejamento (linhas paralelas e finas), sobretudo no da figura da esquerda, que faz acentuar ainda mais esse efeito de verticalidade, que caracteriza também a arquitectura e a pintura góticas.


Estátuas colunares do portal oeste da Catedral de Chartres, c. 1145-1155


Para 100 anos depois, eis um bom exemplo da evolução para uma mais acentuada humanização, realismo e expressividade. Notem ainda a permanência do alongamento intencional.

Adão, originalmente na fachada da Catedral de Notre-Dame de Paris. Mármore, c. 1260


Outro bom exemplo, mais tardio ainda, para olharmos para a graciosidade e elegância curvilínea (com o desenho de um S) típica das esculturas das Virgens góticas:

Virgem com o menino, Abadia de Saint Dennis, 1339
(texto com interesse para algum aprofundamento)

Deixo-vos 3 exemplos referentes ao nosso país, dos dois mais importantes escultores do nosso gótico - um, provavelmente proveniente de Aragão - Mestre Pêro - e outro português - Diogo Pires-o-Velho, mas ambos com oficinas em Coimbra:

Virgem com o Menino, Oficina de mestre Pêro, 2º quartel do século XIV


Senhora do Ó, Mestre Pêro, Igreja da Alcáçova, Montemor-o-Velho,



Imagem de Nossa Senhora da Conceição ("Virgem de Leça"), Diogo Pires-o-Velho, 1481


Lanço-vos um convite-desafio final: vão até à nossa Igreja do antigo Convento Franciscano - hoje Igreja da Misericórdia - (ali junto à antiga Rodoviária) entrem... e procurem à direita pela escultura de uma Virgem... "manuelina"... isto é, dos inícos do século XVI... ainda gótica... de um gótico final... de um escultor não tão erudito (são notórias as limitações técnicas e artísticas... e a interpretação de feição popular...) como os maiores que apresentei acima, mas com uma graciosidade e serenidade simplesmente tocantes. Trata-se de uma escultura que me parece estar esquecida nos trabalhos dos nossos historiadores de arte, o que não surpreende por não ser do melhor que temos no país; mas pela suas dimensões e qualidades a outros níveis, e até pela sua origem - terá vindo do Convento de Santa Maria de Ceiça, ali perto do Paião - devia merecer outras atenções...

Ah!! E não é inocente o convite! Apercebam-se das semelhanças com a Virgem de Leça! Como não concluir onde o anónimo escultor da "Virgem da Boa Viagem" foi buscar a inspiração! É que a "Virgem de Leça" é uma escultura deveras impressionante! Pudera: teve como encomendante o próprio rei D. Afonso V! Impossível imaginar que recorreria a um "santeiro" (escultor popular, de formação não-erudita); claro que escolheu o nosso melhor escultor da altura! E é uma peça de dimensões impressionantes! Como deve ter impressionado os homens e mulheres - cultos e populares - da altura!!


Igreja da Misericórdia

1 comentários:

  1. Obrigado pela vossa visita e referência à Nova Casa Portuguesa.
    Parabéns também pelo vosso trabalho! Força!

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